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A Dama de Ferro da Fazenda

Ana Paula Vescovi é uma das negociadoras mais implacáveis do governo – sem nunca levantar a voz.

Quando algo a tira do sério, uma espécie de tique se manifesta: a No. 2 da Fazenda se levanta, vai para trás da cadeira, repousa as mãos no encosto, respira fundo e volta a questionar o interlocutor, até que a resposta a satisfaça.

O mecanismo já se repetia na Secretaria da Fazenda do Espírito Santo, onde um duríssimo ajuste fiscal comandado por ela impediu que o Estado tomasse o mesmo rumo do hoje quebrado Rio de Janeiro. Também era comum na Secretaria do Tesouro Nacional, onde Vescovi disse ‘não’ a uma fila de governadores de pires na mão e devolveu credibilidade ao órgão onde nasceu a contabilidade criativa do governo Dilma.

Mas Vescovi nunca se levantou tanto da cadeira quanto na presidência do conselho da Caixa, que assumiu há um ano e meio.

Sob seu comando, o conselho foi o fiador de um turnaround dramático e silencioso – à custa de brigas com políticos e sindicalistas, noites de sono e um punhado de processos.

O resultado: a estrutura de capital da Caixa, combalida por anos de expansão irresponsável do crédito, está de novo equilibrada – um ajuste de cerca de R$ 20 bilhões feito sem que o Tesouro tivesse que injetar R$ 1.

Mais: o conselho – que hoje tem dois membros independentes, além de técnicos da Fazenda, do Planejamento e do CEO, Nelson de Souza – reformulou toda a governança de um banco que coleciona problemas com a Polícia Federal e órgãos de controle, e que estava acostumado a ver o Tesouro como seu cofre (e vice-versa).

Os números voltaram a brilhar. O retorno sobre o patrimônio da Caixa saiu de 6,6% no fim de 2016 para 12,9% no primeiro semestre deste ano. Em 2017, o banco teve um lucro recorrente de R$ 9 bilhões – que deve crescer neste ano, permitindo que a Caixa volte a expandir sua carteira de crédito em 2019.

O trabalho de técnicos como Vescovi está na base das coisas que funcionam na máquina frequentemente escangalhada do Estado brasileiro. São histórias de dedicação diária, sacrifício familiar e abnegação silenciosa, com o ônus cada vez mais pesado de um cargo público numa época de escrutínio sem precedentes. Da mesma forma, o turnaround da Caixa mostra como uma equipe com capacidade técnica e blindada da política pode consertar os erros cometidos por um governo que trabalhava com os sinais trocados.

Vescovi está no serviço público há 25 anos. Passou pela Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda nos governos FHC 2 e Lula 1, o que a ajudou a conhecer a máquina como poucos. Austera e de poucos sorrisos, costuma dizer aos subordinados que “há o certo e o errado” – e não tem problemas em se indispor quando acha que está do lado certo.

Na Caixa, o ajuste de capital ocorreu sem mágica: o conselho cortou a carteira de crédito, reteve capital dentro do banco sem distribuir dividendos à União – que antes ficava com dividendos e recapitalizava a Caixa com dívida subordinada – cortou custos, incluindo um programa de demissão voluntária que enxugou 10% dos mais de 90 mil funcionários, e ajustes de tesouraria, com a troca de captações mais caras para mais baratas.

A batalha mais notória de Vescovi aconteceu em janeiro, quando o conselho da Caixa destituiu três vice-presidentes ligados a partidos da base aliada e implicados em denúncias de corrupção.

Foram 13 horas de reunião – e muitas levantadas da cadeira. A destituição só foi possível porque três dias antes o conselho havia aprovado, depois de muita luta, um novo estatuto amparado pela Lei das Estatais. O novo texto dava ao colegiado – e não mais à Presidência da República – a prerrogativa de demitir e contratar VPs. (Os substitutos já foram recrutados por uma firma independente e devem ser anunciados nas próximas semanas).

Meses antes, o conselho já havia dado outro exemplo de como blindar o banco do uso político.

Profunda conhecedora da situação fiscal dos Estados, Vescovi decidiu suspender R$ 19 bilhões em pedidos de concessão de crédito para Estados e Municípios sem aval da União. O TCU examinava a validade do uso de fundos de participação municipais e estaduais como garantia, mas ainda não tinha um parecer definitivo.

Na prática, o crédito era usado como moeda de troca para a aprovação de projetos no Congresso – uma artifício que sempre cresce em ano eleitoral. A resistência à suspensão pela Caixa foi imensa.

Gilberto Occhi, então presidente do banco, pediu um parecer à AGU, que logo autorizou a liberação. Antes do dinheiro começar a sair, no entanto, o BC apertou as exigências de capital dos bancos para conceder o crédito. Além disso, as coisas na Caixa mudaram: uma ‘política de apetite ao risco’ agora dá as diretrizes para a concessão desse tipo de empréstimo.

O cofre foi fechado, mas não sem desgaste.

Occhi – que deixou a presidência da Caixa em março para assumir o Ministério da Saúde – virou um dos principais desafetos de Vescovi. Ele move um processo contra ela na pessoa física, alegando que não teve o direito ao contraditório e que sofreu danos morais pela ação da secretária-executiva da Fazenda. O motivo: o conselho da Caixa autorizou o envio de investigações internas – que traziam indícios de supostas irregularidades de Occhi – ao Ministério Público e ao TCU. Essas mesmas investigações haviam dado respaldo à demissão dos VPs.

A situação na Caixa era tão complicada que a PwC, que havia acabado de assumir como auditora externa, se negou a assinar o balanço do terceiro trimestre de 2017. A firma concluíra que não havia processos organizados para dar conta das investigações da Polícia Federal e dos inúmeros apontamentos da CGU e do TCU. Só cedeu depois que o conselho chamou para si a bronca e contratou o Pinheiro Neto e a Kroll para conduzir as investigações independentes. (Ainda assim, o balanço saiu com ressalvas).

O descaso com a governança se traduzia em episódios quase kafkianos.

No ano passado, um diretor apresentou ao conselho uma pauta trivial: a contratação de uma firma para fazer o inventário patrimonial – a contagem de bens e ativos para contabilização no balanço. Vescovi teve que levantar da cadeira e respirar fundo ao descobrir que a Caixa estava sem inventário há mais de 10 anos. O resultado: um rombo de R$ 200 milhões no balanço pego pela firma de auditoria externa.

Outro executivo foi levar o Orçamento de 2018 ao conselho, e tomou um pito quando o constatou-se que a peça já havia sido encaminhada ao Ministério do Planejamento. A apresentação era só para cumprir tabela…

Hoje, nenhum executivo chega a uma reunião do conselho despreparado – sob pena de ser pego desprevenido quando a presidente levantar da cadeira.

“A Ana não dá uma discussão por terminada sem antes ter todas as informações”, diz um interlocutor próximo. “Já vi gente sair desconcertado de uma reunião com ela”.

Para além dos embates no alto escalão, o conselho levantou a moral do corpo técnico da Caixa.

Uma das principais mudanças foi o empoderamento da auditoria interna. O órgão havia constatado diversas irregularidades, simplesmente ignoradas pelas áreas responsáveis. Hoje, auditores e corregedores respondem diretamente ao conselho para assuntos considerados mais críticos.

O conselho também implementou uma ‘política de consequências’, que faz o descumprimento dos pontos de auditoria doer no bolso dos executivos, mediante redução no bônus. Foram mais de oito meses de discussão – e muita resistência dos dirigentes – até que a política fosse incluída no estatuto.

Mexer com tantos tabus rendeu um desgaste monstruoso à secretária-executiva da Fazenda. Além dos processos, ela enfrenta rotineiramente protestos de sindicatos – que costumam acusá-la de ‘entreguismo’ e de ser uma ‘infiltrada’ a serviço da privatização.

Um dia normal no Brasil.

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